Entenda o que é demanda contratada, a diferença entre grupo A e grupo B e por que revisar esse número pode reduzir a conta de luz da sua empresa.
Empresas atendidas em média ou alta tensão recebem uma conta de luz diferente da que chega em casa. Além do consumo em quilowatt-hora, há uma linha que cobra por algo que muita gente não entende: a demanda contratada, medida em quilowatt.
É uma cobrança que independe de quanto a empresa consumiu. Ela existe porque a distribuidora precisa manter capacidade reservada para atender aquele estabelecimento no momento de pico, e essa reserva é dimensionada por contrato.
Este artigo explica o que é a demanda contratada, a diferença entre grupo A e grupo B, o que acontece quando a empresa ultrapassa o valor contratado e por que revisar esse número costuma ser uma das economias mais rápidas de uma operação.
Grupo A e grupo B: onde a sua empresa está
A ANEEL divide os consumidores em dois grandes grupos, conforme a tensão de fornecimento.
O grupo B reúne os consumidores de baixa tensão, abaixo de 2,3 kV. É onde estão as residências, os pequenos comércios, escritórios e a maior parte dos prestadores de serviço. A conta cobra apenas o consumo em kWh, sem linha de demanda.
O grupo A reúne os consumidores de média e alta tensão, a partir de 2,3 kV. Indústrias, supermercados, hospitais, hotéis e empresas com carga elevada costumam estar aqui. A conta tem duas parcelas: consumo, em kWh, e demanda, em kW.
A diferença mais visível é a existência de um transformador próprio, geralmente instalado em cabine ou poste dentro do terreno da empresa. Se o seu negócio tem uma cabine primária, ele está no grupo A.
O que é demanda e por que ela é cobrada
Consumo e demanda medem coisas diferentes. Consumo é a quantidade de energia usada ao longo do mês, em kWh. Demanda é a potência máxima solicitada em determinado intervalo, em kW.
Uma analogia ajuda: o consumo é quanta água você usou no mês; a demanda é a largura do cano que precisou estar disponível para o seu pico de uso. Manter um cano largo custa mesmo nos dias em que passa pouca água.
É isso que a demanda contratada remunera. A distribuidora reserva capacidade de rede e de transformação para aquela unidade e cobra por essa reserva, tenha ela sido usada integralmente ou não.
O que acontece quando a empresa ultrapassa
Aqui está o ponto que mais aparece em conta de energia empresarial e mais confunde quem a recebe.
Se a demanda medida ultrapassa a contratada além da tolerância prevista na regulação, a distribuidora aplica cobrança adicional sobre a parcela excedente. Essa cobrança é significativa, porque a ultrapassagem indica que a rede foi solicitada além do que estava dimensionado.
Na prática, aparece na conta como uma linha de demanda de ultrapassagem, separada da demanda normal. Um mês com um pico isolado — um equipamento novo ligado junto com o resto, uma partida de motor em horário cheio — pode gerar cobrança adicional mesmo que o consumo total do mês tenha sido normal.
E se a empresa contratar demais?
O erro oposto é mais comum e mais silencioso. Uma empresa que contratou demanda acima do que realmente usa paga por capacidade ociosa todos os meses, sem que nada apareça na fatura sinalizando o desperdício.
Isso acontece com frequência depois de mudanças na operação: troca de equipamentos por modelos mais eficientes, redução de turno, encerramento de uma linha de produção, migração de parte da carga. A demanda foi dimensionada para uma realidade que mudou, e o contrato ficou parado no tempo.
Por isso a revisão da demanda contratada costuma ser um dos ajustes de custo mais rápidos que uma empresa consegue fazer: não exige obra, não exige desembolso e depende apenas de análise e de solicitação formal à distribuidora.
Como revisar a sua demanda
O caminho tem três etapas.
A primeira é levantar o histórico. As faturas dos últimos doze meses trazem a demanda medida em cada competência. Esse conjunto mostra o padrão real da operação, incluindo sazonalidade.
A segunda é comparar com o valor contratado. Se a demanda medida fica sistematicamente abaixo, há espaço para reduzir. Se encosta no limite com frequência, reduzir é arriscado.
A terceira é solicitar a alteração à distribuidora, respeitando os prazos e as condições contratuais. A análise se beneficia de apoio técnico, especialmente em operações com carga variável.
As modalidades tarifárias do grupo A
Empresas do grupo A ainda escolhem entre duas modalidades, o que muda a forma como demanda e consumo são cobrados.
Na tarifa azul, há demanda contratada e tarifas de consumo diferentes para o horário de ponta e para o fora de ponta. É indicada para operações que conseguem controlar o que acontece no horário de maior carga do sistema.
Na tarifa verde, há uma única demanda contratada e tarifas de consumo diferenciadas por posto horário, com valor mais elevado na ponta. Costuma ser adequada a operações que conseguem reduzir consumo no horário de ponta sem precisar diferenciar a demanda.
A escolha entre as duas depende do perfil de carga ao longo do dia e merece análise específica, com dados reais de medição.
O que a energia por assinatura resolve e o que não resolve
Vale ser preciso aqui, porque a confusão entre as duas parcelas gera expectativa errada.
A energia por assinatura atua sobre a parcela de energia, aquela medida em kWh. Os créditos de uma usina solar remota compensam parte do que a empresa consumiu, e o desconto incide sobre essa energia compensada. Na Veins, ele chega a até 30% para clientes empresariais e rurais.
A parcela de demanda não é afetada. Ela remunera a capacidade de rede reservada para a unidade, e essa reserva continua existindo independentemente da origem da energia consumida.
Ou seja: são duas alavancas distintas e complementares. Revisar a demanda ajusta o que a empresa paga pela capacidade; a assinatura reduz o que ela paga pela energia. Fazer as duas coisas produz mais efeito do que escolher uma. O artigo sobre estratégias para reduzir a conta empresarial cobre outras frentes.
Quando vale considerar o mercado livre
Empresas do grupo A podem migrar para o mercado livre desde janeiro de 2024, sem exigência de demanda mínima. Nesse arranjo, a energia é negociada com um comercializador, enquanto a parcela de uso da rede, incluindo a demanda, continua sendo paga à distribuidora.
É mais uma alternativa a comparar, com características próprias de risco e de gestão contratual. O artigo sobre como funciona o mercado livre de energia detalha as regras.
Conclusão
Demanda contratada é a capacidade que a distribuidora reserva para a sua empresa, cobrada em kW e independente do consumo. Contratar acima do necessário gera desperdício silencioso; contratar abaixo gera cobrança de ultrapassagem.
Revisar esse número com base no histórico de doze meses é uma das providências de menor esforço e maior retorno na gestão de energia de uma operação do grupo A. E, como demanda e energia são parcelas diferentes, cada uma tem a sua própria alavanca de redução.
Perguntas frequentes sobre demanda contratada
Minha empresa é do grupo A ou do grupo B?
Se o fornecimento é em baixa tensão e a conta cobra apenas consumo em kWh, é grupo B. Se há transformador próprio, atendimento em média ou alta tensão e linha de demanda em kW na fatura, é grupo A.
Pago demanda mesmo sem usar toda a capacidade?
Sim. A cobrança remunera a capacidade reservada pela distribuidora, tenha ela sido utilizada integralmente ou não no período.
Posso reduzir a demanda contratada a qualquer momento?
A alteração é solicitada à distribuidora e segue prazos e condições previstos em contrato e na regulação. Convém analisar o histórico antes, para não gerar ultrapassagem depois.
A energia por assinatura reduz a cobrança de demanda?
Não. Ela atua sobre a energia consumida, em kWh. A parcela de demanda continua sendo cobrada pela distribuidora conforme o contrato de fornecimento.
Tarifa azul ou verde: qual é melhor?
Depende do perfil de carga da operação ao longo do dia, especialmente no horário de ponta. A comparação precisa ser feita com dados reais de medição da própria empresa.