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Mercado de Energia

Fio B: o que é e como afeta a sua conta de luz

Aurora Coelho

Redatora
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Entenda o que é o fio B, por que ele deixou de ser compensado por quem gera energia solar e como o cronograma da Lei 14.300 muda a sua conta de luz hoje.

Se você acompanha o setor de energia solar, provavelmente já ouviu falar do fio B. O termo ganhou força a partir de 2023 e costuma aparecer em manchetes sobre "taxação do sol", o que gera mais confusão do que esclarecimento.

O fio B não é um imposto novo nem uma cobrança criada para punir quem gera a própria energia. Ele sempre existiu dentro da tarifa de luz e todo consumidor paga por ele. O que mudou foi a regra de compensação: quem gera energia e injeta o excedente na rede deixou de abater esse componente integralmente.

Neste artigo você vai entender o que é o fio B, por que a cobrança sobre a energia compensada começou, qual é o cronograma previsto em lei e o que isso muda para quem tem painéis próprios e para quem usa outros modelos de acesso à energia limpa.

O que é o fio B na conta de luz

A conta de luz tem dois grandes blocos. O primeiro é a TE, a tarifa de energia, que corresponde à eletricidade em si. O segundo é a TUSD, a tarifa de uso do sistema de distribuição, que cobre o custo de levar essa eletricidade até o seu medidor.

Dentro da TUSD existem componentes diferentes. O fio A está ligado ao uso do sistema de transmissão, as grandes linhas que levam a energia das usinas até as regiões de consumo. Já o fio B remunera a infraestrutura local da distribuidora: postes, cabos, transformadores, equipes de manutenção e a expansão da rede no seu bairro.

É por isso que o fio B aparece em todas as contas, mesmo nas de quem nunca ouviu falar em energia solar. Toda vez que a eletricidade percorre o último trecho até a sua casa ou o seu comércio, ela usa uma estrutura que precisa ser mantida.

O valor do fio B não é o mesmo em todo o país. Ele varia conforme a distribuidora e é definido nos processos tarifários conduzidos pela ANEEL, que revisam periodicamente os custos de cada concessionária. Se quiser entender a composição completa da fatura, vale ler como as tarifas de energia são calculadas no Brasil.

Por que o fio B passou a ser cobrado de quem gera energia

Antes do marco legal da geração distribuída, a compensação funcionava de forma simples: cada quilowatt-hora injetado na rede abatia um quilowatt-hora consumido, com o valor cheio da tarifa. Isso incluía o fio B.

O argumento que sustentou a mudança é o seguinte: quem gera energia em casa continua conectado à rede e continua usando essa estrutura. Ela funciona como uma espécie de reserva. Durante o dia, o excedente é injetado; à noite ou em dias nublados, a energia volta a ser puxada da distribuidora. Esse ir e vir depende dos mesmos postes e cabos que todo mundo usa.

Foi essa lógica que a Lei 14.300, sancionada em janeiro de 2022, tentou equilibrar. Ela criou regras para a micro e a minigeração distribuída e estabeleceu que a energia compensada passaria a pagar uma parcela crescente do fio B, em vez de abatê-lo por inteiro.

O cronograma do fio B ano a ano

A transição não foi imediata. A lei previu uma escada, com aumento gradual do percentual do fio B que deixa de ser compensado:

  • 2023: 15%
  • 2024: 30%
  • 2025: 45%
  • 2026: 60%
  • 2027: 75%
  • 2028: 90%

Em 2026, portanto, quem está sujeito a essa regra compensa apenas 40% do fio B sobre a energia injetada. Os outros 60% seguem sendo pagos normalmente na fatura.

Um ponto técnico costuma ser mal interpretado nas conversas sobre o tema: o percentual incide apenas sobre o componente fio B, não sobre a TUSD inteira e muito menos sobre a tarifa total. Pagar 60% do fio B não significa perder 60% da economia de um sistema solar. O fio B é uma fração do valor do quilowatt-hora, e o impacto real depende da tarifa da sua distribuidora e do quanto você injeta na rede.

Quem está sujeito à cobrança e quem não está

Nem todo mundo entrou no mesmo regime. A data em que a solicitação de acesso foi protocolada na distribuidora é o que define a regra aplicável.

Quem protocolou o pedido até 6 de janeiro de 2023 manteve as condições anteriores, sem o escalonamento, até o fim de 2045. É o chamado direito adquirido, criado para preservar os projetos que já haviam sido contratados sob outra expectativa de retorno.

Sistemas solicitados a partir de 7 de janeiro de 2023 seguem o cronograma descrito acima. Existem ainda regras específicas conforme a modalidade da usina e o perfil dos beneficiários, o que torna a leitura do contrato e do parecer de acesso uma etapa que não deve ser pulada.

Como o fio B aparece na sua conta

A cobrança não vem com o nome fio B numa linha separada da fatura. O que acontece é que o crédito gerado pela energia injetada passa a valer um pouco menos do que valeria sob a regra antiga, porque a parcela não compensável do fio B é descontada desse abatimento.

Na prática, o efeito aparece na comparação entre o quanto você injetou e o quanto isso reduziu a conta. Para acompanhar essa leitura mês a mês, ajuda entender como os créditos de energia aparecem na sua conta de luz.

Vale lembrar que a conta nunca chega a zero, independentemente do modelo. Permanecem a taxa mínima de disponibilidade, a contribuição de iluminação pública e os impostos, que não entram na compensação.

O que muda para quem tem painéis próprios

Para quem está avaliando instalar um sistema no telhado, o fio B entra na conta do retorno financeiro. O tempo para recuperar o valor aplicado tende a ser maior do que era antes de 2023, e mais ainda a cada degrau do cronograma.

Isso não elimina a viabilidade da geração própria. Significa apenas que a projeção precisa usar os percentuais corretos do ano em questão, e não simulações antigas que ainda consideram compensação integral. Quem estiver comparando caminhos pode olhar a diferença entre painéis próprios e assinatura antes de decidir.

E para quem usa energia por assinatura

No modelo de energia por assinatura, o cliente não instala nada e não é o titular da usina. A geração acontece em uma usina remota, e os créditos são alocados para a unidade consumidora, dentro das modalidades de geração compartilhada e autoconsumo remoto.

As regras de compensação continuam valendo, e quem opera a usina precisa considerá-las. Por isso, o desconto contratado é oferecido sobre a energia compensada, e não sobre o total da fatura. No caso da Veins, o desconto é de até 22%, e a assinatura não muda a distribuidora nem exige obra.

Duas perguntas são úteis antes de assinar qualquer contrato desse tipo: qual é a data do parecer de acesso da usina que vai atender você e como o cronograma do fio B afeta o desconto ao longo do período contratado. Um fornecedor sério responde as duas sem rodeios.

O que acontece a partir de 2029

O cronograma previsto na lei vai até 2028. Para o período seguinte, a definição ficou a cargo da ANEEL, que deve estabelecer um novo modelo de compensação a partir de estudos sobre custos e benefícios da geração distribuída.

Esse é o ponto ainda em aberto do assunto. Há discussão no setor sobre qual será o formato, e não existe decisão final publicada. Qualquer projeção de longo prazo para sistemas conectados depois de 2023 deveria tratar 2029 em diante como cenário sujeito a mudança, não como número fechado.

Conclusão

O fio B é o componente da tarifa que paga a rede de distribuição da sua região. Ele sempre esteve na conta de todo mundo. A mudança trazida pelo marco legal foi retirar esse componente da compensação de quem gera energia, de forma escalonada, chegando a 60% em 2026 e a 90% em 2028.

O efeito prático é uma economia menor por quilowatt-hora injetado para quem conectou o sistema a partir de 2023, sem que isso torne a geração distribuída inviável. Para quem acessa energia limpa por outros modelos, o que importa é entender como as regras de compensação foram consideradas no desconto oferecido e pedir essa informação de forma clara antes de assinar.

Perguntas frequentes sobre o fio B

O fio B é um imposto?

Não. Ele é um componente da TUSD, a tarifa que remunera o uso da rede de distribuição. Impostos como ICMS e PIS/Cofins são cobranças separadas dentro da fatura.

Quem não tem energia solar paga fio B?

Sim. O fio B está embutido na tarifa de todos os consumidores conectados à rede. A discussão sobre percentuais diz respeito apenas à parcela que pode ser compensada por quem injeta energia.

Quem instalou painéis antes de 2023 vai pagar?

Quem protocolou a solicitação de acesso até 6 de janeiro de 2023 manteve as regras anteriores até o fim de 2045. O escalonamento vale para os pedidos feitos a partir de 7 de janeiro de 2023.

Pagar 60% do fio B em 2026 acaba com a economia da energia solar?

Não. O percentual incide sobre o componente fio B, que é uma fração do valor do quilowatt-hora, e não sobre a tarifa cheia. O impacto varia conforme a distribuidora, o perfil de consumo e o volume injetado na rede.

Quem usa energia por assinatura precisa se preocupar com o fio B?

O cliente não lida diretamente com a cobrança, porque não é o titular da usina. Ainda assim, vale perguntar ao fornecedor como as regras de compensação foram consideradas no desconto contratado.

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